Coorte de Nascimentos de 2004

Centro de Pesquisas Epidemiológicas
Universidade Federal de Pelotas

Histórico

O acompanhamento de duas coortes de nascimento em Pelotas, RS, e a produção daí derivada, foram centrais para projetar este grupo de pesquisa no cenário nacional e internacional.

A primeira coorte, iniciada em 1982, foi uma iniciativa pioneira e atualmente, 20 anos mais tarde, cerca de ¾ dos nascidos continuam sendo acompanhados. Outra coorte iniciada em 1993, onze anos depois da primeira, teve impacto equivalente. Ambas as coortes resultaram na produção de cerca de uma centena de publicações e de mais de 15 dissertações de mestrado e doutorado.

Inúmeros aspectos da saúde e da vida foram explorados nestes grupos, incluindo questões ligadas à mortalidade infantil, desnutrição, crescimento, sexualidade, gravidez na adolescência e hipertensão.

O trabalho iniciado em 1982 teve como pesquisadores principais os Professores Dr. César Victora e Dr. Fernando Barros. Em recente revisão da literatura internacional , Harpham e colegas (2003) identificaram a coorte de 1982 de Pelotas como o maior e mais longo estudo desse tipo realizado em um país em desenvolvimento .

Alguns dados das coortes de 82 e de 93

Diversos são os aspectos estudados pelos pesquisadores com base nas Coortes em desenvolvimento pela UFPel, inclusive com publicações internacionais.

Dos índices já coletados verificou-se, por exemplo, a redução em 31% de mortalidade perinatal (período compreendido entre a 22ª semana de gestação até o 28º dia após o nascimento da criança) e aumento no tempo de amamentação em um mês. A média passou de três para quatro meses.

O trabalho também confirmou a queda nos índices de desnutrição em crianças com até um ano de vida. Os dados comparativos das duas Coortes apontam que a diminuição foi de 5,4% para 3,8%. Entretanto, um fato preocupante, diz respeito à obesidade que aumentou de 4% para 6,7%.

A taxa de mortalidade infantil em Pelotas, caiu de mais de 35% em 1982 para 22% em 1993, e permaneceu estável .

A situação nutricional das mães apresentou variações na década, com um aumento médio de 3,5 centímetros em estatura e 3,9 quilos no peso no início da gestação. Apesar destas melhoras, a proporção de recém-nascidos de baixo peso aumentou para 9,8% em 1993 (9,0% 1982).

Uma das conclusões da comparação dos estudos das coortes materno-infantis de Pelotas de 1982 e 1993 foi de que a redução no número de nascimentos de 6.011, em 1982 para 5.304, em 1993, fato não se distribuiu de forma eqüitativa entre os diferentes grupos de renda familiar. A redução foi marcada entre as mulheres de baixa renda, que tiveram cerca de 1.000 nascimentos a menos do que em 1982. O grupo com renda mais elevada contribuiu com um aumento de cerca de 300 nascimentos.

Coorte de nascimentos de 2004

O acompanhamento de todos os nascidos vivos de Pelotas durante o ano de 2004, ofereceu uma oportunidade única para avaliar mudanças nos padrões sociais e epidemiológicos da saúde (vista como um fenômeno amplo) e no efeito de situações e características do início da vida sobre desfechos que serão detectados anos depois, no curso da vida dos indivíduos.

O estudo de 1982 foi realizado antes da implantação do SUS e o de 1993 na fase inicial de sua implantação. Neste estudo de 2004 o SUS encontra-se plenamente implantado no município. Este estudo tem metodologia similar à dos estudos de 1982 e 1993, com todos os recém-nascidos residentes em Pelotas avaliados, e suas mães entrevistadas. Foram previstas também, para os nascidos em 2004, uma visita domiciliar aos três meses e outra aos 12 meses de vida .









Visita aos três meses

Aos três meses de idade as crianças foram procuradas em seus domicílios. O enfoque principal desta visita foi documentar, com qualidade, eventos neonatais e do início da infância como aleitamento, morbidade, mortalidade, entre outros, além da avaliação antropométrica da criança.

Neste período foi constatado a ocorrência de 65 óbitos. Dentre os elegíveis para a visita foram entrevistados 95,7%. Cento e cinqüenta e cinco crianças não foram localizadas, a maioria por mudança para outros municípios e apenas 26 foram recusas.

Visita aos 12 meses

Esta visita foi realizada, em parte, para propiciar a comparabilidade com as outras duas coortes (1982 e 1993) que fizeram acompanhamentos nesta idade.

Observou-se que a taxa de acompanhamento aos 12 meses foi de 93,6%, semelhante à obtida em 1993 (93,4%), e bem maior que a obtida com o acompanhamento de 12 meses da coorte de 1982 (79,3%).

Comparação de alguns indicadores com as coortes anteriores.

  • A mortalidade infantil que havia diminuído de 36,4 para 21,1 óbitos por mil nascidos vivos de 1982 para 1993 (42% menos), em 2004 apresentou um decréscimo de apenas 8% em relação a 1993. É interessante ressaltar-se que 65,5% dos óbitos ocorreram no período neonatal.

  • A renda familiar em salários mínimos manteve-se estável. Sendo que 21% das famílias entrevistadas ganham menos do que 1 salário mínimo mensal.

  • A idade média das mães não mudou, mas em relação a 1993, há proporcionalmente mais mães adolescentes.

  • A prevalência de mães brancas vem caindo nas coortes, 72,8 foram classificadas como brancas, sendo sido o correspondente de 82,1% em 1982 e 77,2% em 1993.

  • Com relação a escolaridade, os dados são preocupantes, mostrando que mais de 40% das mulheres que tiveram filhos em 2004 não completaram o ensino fundamental. Em comparação com 1993, há uma melhora da média de anos de estudo passando de 6,7 para 8,1 anos.

  • O tabagismo durante a gestação diminuiu de 33,4% em 1993 para 27,5% em 2004.

  • A prevalência de cesarianas teve aumento de 50% passando de 30,5% em 1993 para 45,4% em 2004, sendo quase que universal nas usuárias de plano de saúde.

  • Observou-se um grande aumento de partos pré-termos, passando de 7,5%, em 1993 para 15,3%, em 2004.

  • A prevalência de baixo peso não se alterou permanecendo em torno de 10%, em parte devido ao fato de que o aumento de pré-termos ocorreu entre as crianças com idade gestacional entre 35 e 36 semanas, muito próximo da idade gestacional de termo.

Dados sobre a mortalidade neonatal entre as três coortes de nascimentos foram descritos por Barros e colaboradores, no The Lancet.


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